Crucificação das Pessoas Trans


foto disponivel no Facebook da atriz

Durante a parada LGBT 2015 de São Paulo a linda atriz transsexual Viviany Beleboni encenou uma crucificação. Na época a situação gerou bastante polêmica, os religiosos atacaram considerando o ato um “desrespeito” a sua fé, vi milhares de pessoas criticando a situação como algo grotesco e pornografico. Eu estava lá porque adoro a festa e digo que Viviany estava linda, divando e mandando uma mensagem social fortíssima. Na época eu já defendi a encenação pois entendo que os transsexuais e homossexuais são crucificados todos os dias pelos pré-conceitos heteronormativos e pela “moral” religiosa. Se a história bíblica conta a crucificação de Jesus como um ato heroico, onde ele teria dado sua vida para proteger seus iguais, não entendo a diferença do ato realizado na Parada. O que eu vi na situação foi uma mulher se crucificando heroicamente, expondo sua intimidade, identidade e corpo para defender a vida de seus iguais, afinal o Brasil é o país que mais mata gays, lésbicas, travestis e transsexuais no mundo. Apenas em 2012 44% dos assassinatos por homofobia e transfobia do mundo aconteceram no Brasil. O número é assustador, mas seria ainda mais se todos os crimes fossem registrados corretamente, a polícia que deveria oferecer segurança a todos, sem distinção de raça, cor, gênero ou sexo, é um grande obstáculo. Além do registro desse tipo de homicídio ocorrer como homicídio comum sempre que possível, dificultando muito a obtenção de dados para análise, também existe a continuação da violência para aquela que foi violentada e sobreviveu. Os relatos de pessoas que procuraram a polícia costumam vir com tratamento pelo gênero de nascimento não pelo gênero de identificação, violência física e verbal, humilhação e culpabilização da vítima. É óbvio o que leva as pessoas que sofreram violência a fugirem da polícia, o medo de intensificação dessa violência.  

Aqui no centro de São Paulo eu tenho a sorte de conviver um pouco com essas mulheres tão especiais, falo mulheres por que realmente tenho mais contato com mulheres trans do que com homens trans, fazemos compras no mesmo mercado, frequentamos a mesma farmácia, nos cruzamos o tempo todo na rua e eu faço questão de puxar um assunto sempre que possível ou só expressar para elas o meu mais sincero sorriso de sororidade. Infelizmente também vejo de perto a violência com elas, como grande parte das pessoas olha torto, desvia, aponta e discrimina, cansei de ver que até aquelas que se submetem a prostituição são tratadas de forma diferente das garotas de programa cisgenero. As profissionais do sexo Cis entram nos carros de seus clientes, são exibidas pelos seus clientes e eles conversam e negociam valores abertamente, nota-se que os clientes não se incomodam de serem vistos com elas, agora, quanto as profissionais do sexo Trans a história é bem diferente, o contato com o cliente costuma ser distante, uma troca de olhares e sorrisos disfarçada, amedrontada, quando contratadas costumam andar a frente ou atrás de seus clientes, nunca lado a lado, já cheguei a ver clientes que combinam o local com a profissional e fazem caminhos diferentes. Tenho vontade de abraçá-las, levar para casa e dizer amiga, você não está sozinha, tenha orgulho de quem você é! 

Viviany não foi a primeira a usar imagens bíblicas como forma de protesto contra a violência oriunda dessa tal “moral” religiosa, outros artistas já fizeram coisas parecidas e os publicitários fazem bem mais, usam imagens bíblicas para vender qualquer coisa, afinal, ganhar dinheiro usando a fé das pessoas não é pecado, usar a imagem bíblica para lutar por justiça, respeito e vida, é pecado. É sério isso? Sim, infelizmente é muito sério. Tão sério que no último final de semana a atriz foi reconhecida próximo de sua casa e sofreu um atentado, foi atacada por alguém que portando uma faca dizia agir em nome de Deus, que Viviany pagaria pelo que fez. Por sorte Viviany conseguiu se desvencilhar do agressor e fugir, logo depois veio a público por sua página no facebook mostrando os hematomas e cortes que sofreu e dizendo que não iria a polícia para não sofrer mais violência, que iria se esconder em casa. 

Eu fico aqui me perguntando, quantas vezes Viviany foi crucificada? Se crucificou em seu ato, na Parada, na sequência foi crucificada por muitos, a ponto de precisar abrir um processo por danos morais contra o Pastor Marco Feliciano, e agora crucificada literalmente, agredida por ser ela mesma. Poderiam ser só essas crucificações, mas mesmo sem conhecer a história pessoal dessa moça que para mim é uma verdadeira heroína, acredito que tenham sido muitas mais as crucificações. 

Essa nota é uma nota de repudio a violência sofrida por Viviany e por todas as outras mulheres Trans, mulheres Cis e a comunidade LGBT, é uma nota de desabafo, de tristeza mas também de força. Essa nota, antes de qualquer coisa é um abraço para Viviany, uma declaração de apoio e de esperança para que ela não desista, não se cale e exiba por aí sua arte e seus protestos. Viviany, você é linda, talentosa e merece ser muito feliz. 

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Feminista sim senhora!

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O feminismo é um sentimento que nasceu comigo mas que me trouxe muitos conflitos internos antes de eu realmente me dedicar a estudar e entender sobre ele. Sempre tive a sensação de que havia algo errado em uma sociedade onde as mulheres mostram obediência aos homem sobre assuntos em que elas são as protagonistas. Nunca entendi a idéia de preservar o corpo, se esconder e ao mesmo tempo manter um padrão de beleza físico. A quem interessam essas regras? Não as mulheres. Nunca entendi por que as mulheres da minha família aceitavam humilhações, traições e desprezo em nome da aparência do casamento. Fui tratada como louca, como rebelde, adoravam dizer que “eu nunca iria conseguir um homem” como se isso fosse o ápice da vida de uma mulher. Na adolescência ser tratada como louca e a esquisita não faz bem pra ninguém, entendi que o problema era eu e tinha que me adaptar. Na mesma fase veio o primeiro namoro sério, minha primeira experiência direta com o machismo. A pressão para perder a virgindade, para estar bonita, cheguei a achar que o fim do mundo seria perdê-lo, mas ele nunca mostrou medo de me perder. Ele desfilava pela escola com a “melhor amiga” loira, magra e alta. Eu, gordinha, baixinha que não era nenhuma expert em truques de beleza resolvi virar o jogo. Embarquei em uma bulimia que evoluiu para anorexia, renovei meu guarda roupa com coisas da moda, justas e sexy. Aprendi a me maquiar, emagreci mais do que deveria, me fiz objeto de desejo da escola inteira, eles queriam estar comigo e elas queriam ser iguais a mim. Agora quem fazia bulling era eu. Até que de repente o machismo se inverteu e me atacou novamente, agora eu era a puta pelas roupas que usava, os caras achavam que poderiam fazer as piadas que bem intendessem em relação a mim e ouvia “você decidiu ficar assim, bonita, agora tem que aturar as consequências”. E o problema continuava sendo eu, que cada vez mais magra cheguei a tentar suicídio, queria desistir do mundo. No meio do sonho da carreira de atriz, pela qual eu me dediquei alguns anos na adolescência entendi que o papel principal é sempre de quem dorme com o diretor, ou faz ele pensar que isso irá acontecer. Os meus papéis eram sempre de “Lolita”, esbanjando apelo sexual. Tive alguns namorados, incrivelmente um mais machista que o outro e eu tentando me ajustar. Aos 17 veio a gravidez, eu por alguns instantes acreditei que estava caminhando para o mesmo destino da maioria das mulheres, casar, viver para cuidar da casa, do filho, do marido. Desisti de mim. Porém no final da gestação eu já entendia que não daria para ser assim, o meu então namorado com quem eu morava começou a ser pior do que eu poderia imaginar em uma mistura de falta de caráter, machismo e drogas sintéticas. Eu ficava presa, não podia falar para ninguém oque se passava enquanto ele se drogava dentro de casa durante minha gestação, fui afastada dos meus amigos e convencida de que essa era a única opção que eu tinha. No meio desse loucura fui convencida pelo GO que eu não seria capaz de parir, era muito nova, muito pequena, ele inventou milhões de desculpas e eu sai de lá me sentindo o pior ser humano, incapaz de dar a luz ao meu filho. Me fizeram uma cesárea desnecessária e ainda tentaram me convencer que eu não conseguiria amamentar.
E antes que a violência doméstica se tornasse física meu filho nasceu, nasceu com ele uma leoa dentro de mim. Essa veio cheia de dúvidas e revoltas mas me trouxe coragem e curiosidade para entender a situação que eu vivia.
Criei coragem e gritei pro mundo que sim, eu dou conta de criar meu filho sozinha! Me separei, ouvi todos os absurdos possíveis. 18 anos, um bebê no colo e muita coragem, era tudo que eu tinha. O apoio dos meus pais foi fundamental, mas sempre junto com muita cobrança. Decidi não voltar para a casa dos meus pais, seriamos eu e bebê cuidando um do outro. No centro de São Paulo quando você é mãe solteira e jovem automaticamente é taxada mais uma vez de prostituta. Ai a leoa atacou novamente, eu descobri e me vi no feminismo. O corpo é meu, a casa é minha, o filho é meu, as contas são pagas por mim, ou seja ninguém que não viva exatamente o que eu vivo tem o direito de julgar. Tomei essa lição pra vida, mudei minha atitude e abri os olhos, será que tudo isso aconteceu só comigo? E a resposta é não, não mesmo. Sorte tive eu de passar por tudo e manter a vida, mas infelizmente essa não é a realidade de todas. É absurda a forma como os outros tomam conta das nossas atitudes de forma ignorante, padronizada. O machismo mata milhares de mulheres das formas mais abrangentes, a sensação de posse sobre a mulher leva a índices assustadores de violência, mulheres vivem em cárceres privados, tem suas roupas censuradas, são violentadas verbalmente inúmeras vezes em um único dia, são julgadas o tempo todo, até a constituição nos diz o que fazer ou não com nosso próprio corpo. O que me difere dessas mulheres? Nada! Somos todas irmãs, passamos todas pelo mesmo tipo de violência de gênero e só temos umas as outras para nos defender.
Às mulheres machistas falta o senso de sororidade, falta talvez entender que aquilo a que ela é submetida contra sua vontade é sim uma violência, não é normal e tem saída.
Eu só serei uma mulher livre quando todas as minhas irmãs também forem livres!