Escarlatina – Procurando bem, todo mundo tem….

  

Era um lindo final de semana de folga na praia, tudo tranquilo até sermos arrebatados por uma febre do Bernardo. Com um breve exame mãe-clínico constatei que o problema estava na garganta, um dia antes de viajarmos já havia percebido um pouco de vermelhidão forte na garganta, por isso mesmo mantive ele de camiseta na praia e nem fomos mergulhar, mesmo estando um sol lindo. Em menos de 24 horas a pequena vermelhidão se tornou grande e com bolhas brancas de infecção. Levei para casa, dei banho e antitérmico e enquanto ele dormia sob os cuidados do vovô, eu e vovó fomos à farmácia procurar antiinflamatório e mais antitérmico. Não, não sou a favor de medicar criança aleatoriamente, apenas dei os remédios que são normalmente indicados para início de inflamação na garganta pelos pediatras que ele já frequentou, nas mesmas dosagens. A febre cedeu, ele brincou a tarde toda mas ficamos em casa mesmo. Aquela noite foi de sono tranquilo, o Be acordou uma vez só para usar o banheiro (que mocinho!!). O dia seguinte amanheceu com chuva, deixando o Bê extremamente chateado, mesmo ele estando bem só conseguimos sair para uma caminhada na praia no fim da tarde e bem agasalhados. Naquela noite aconteceu a festa junina da praia em família, como a rua tem várias casas de familiares montamos fogueira e comes e bebes na rua mesmo e fazemos a maior festa, porém esse ano o Be se recusou a sair de casa, mesmo todo arrumadinho de caipira ele preferiu ficar brincando na sala, nós nos revezávamos para ficar com ele e aproveitar a festa, também não queria comer nada, apenas um bolo de morango o conquistou. 

A febre voltou, já tinha dado o horário então dei o antitérmico novamente, a febre abaixou e coloquei na cama, quando fui colocar o pijama percebi que ele estava muito vermelho, na virilha, no peito e nas costas, mas achei que fosse da febre e como estava baixando, iria passar. Como todos já estavam em casa e o Be dormindo, aproveitei para relaxar no silêncio lá fora um pouco com meu amor, mas não durou muito, logo recebi uma mensagem de que o Be tinha acordado novamente e eu corri para o que seria uma das noites mais angustiantes que passei com ele. A febre voltou com tudo e chegou a 38,7, ele delirava, se coçava todo, cada vez mais vermelho e eu em pânico, para não acordar ele e a casa inteira, eu e meu super companheiro que se mostra cada dia mais incrível em me apoiar e cuidar do Bê, optamos por não dar banho mas usamos panos molhados e muito carinho. Enquanto fazíamos isso procurei pelo plano de saúde algum local de atendimento 24 horas, nada, para correr ao médico eu teria que acordar meu país e subir a serra de madrugada e no desespero, mesmo minha mãe sendo a melhor motorista do mundo não achei que era uma boa ideia, mas era o que eu faria se a febre passasse de 39°. Medi a febre novamente e ela baixava muito lentamente, mas seguimos com paninhos. Confesso que nunca senti tanto medo, eu sabia que existia a chance de ele convulsionar e que eu não podia deixar isso acontecer, mas se acontecesse eu também não saberia o que fazer. Mas não aconteceu, mesmo lentamente a febre baixou para 37,5° lá pelas 4 da manhã, eu e Guá, exaustos e aliviados conseguimos cochilar um pouco. 

O Sol de domingo de manhã chamava para a praia, mas mesmo com o coração apertado por não saber quando vou tirar folga novamente convenci a todos para voltarmos ainda de manhã para São Paulo. O Be acordou de bom humor, porém com muita coceira e a vermelhidão havia se transformado em milhares de bolinhas pequenas, vermelhas e ásperas. Tomamos café, demos uma geral na casa e viemos de volta para a cidade grande, minha mãe nos deixou na porta do hospital infantil Sabará ainda era meio dia.

 Eu já tinha me preparado psicologicamente para ficar lá horas e horas, mas para a nossa surpresa foi tudo muito rápido. Entramos e ainda na sala de pré-atendimento as enfermeiras já deram prioridade “mãe, isso deve estar coçando muito, vou colocar como emergência” e subimos rapidamente para a sala de espera da pediatra, nem cinco minutos para o Be pintar o desenho, para a minha sorte ele estava de ótimo humor, e a médica já chamou. Indiquei a ela os sintomas, vermelhidão, coceira, febre alta, bolinhas, falta de apetite, ela examinou e rapidamente já teve certeza “é escarlatina” exclamou e eu no auge da minha ignorância sobre patologias fiz “hein? O que é isso?”. Então a pediatra me explicou que é uma das doenças consideradas infantis, como catapora, roséola, sarampo e etc, ela tem duas possibilidades para infectar a criança, é contagiosa até o início da medicação, ou pode aparecer como evolução da infecção de garganta. É uma infecção forte na garganta, que atinge a pele da criança com esse aspecto áspero, também incha um pouco a língua deixando as papilas ressaltadas. Não é uma doença grave porém ela tem facilidade em evoluir caso o tratamento não seja correto, pode virar pneumonia, meningite, febre reumática e outras doenças. 

A pediatra explicou que por ser uma doença bem característica e pelo Be apresentar todos os sintomas e nada além, não seria necessário o exame sanguíneo, a não ser que eu fizesse questão. Não fiz, se é desnecessário acho desnecessário também ficar mais uma hora lá expondo meu filhote já debilitado a outros problemas hospitalares. O tratamento indicado foi antiinflamatório, antialérgico e antibiótico, com a receita em mãos voltamos para casa. ‘Paidrasto’ saiu para comprar os remédios e passamos o resto do dia mimando o baixinho, ganhei folga do trabalho segunda e terça para cuidar dele também. Logo que iniciamos o tratamento os sintomas começaram a desaparecer, a febre foi a primeira a sumir, para nossa alegria, logo sumiu a vermelhidão, a garganta foi melhorando, as bolinhas diminuindo bem lentamente e amanhã acabam os 10 dias de tratamento. Nosso baixinho já está ótimo! 

O melhor amigo do Bernardo, com quem ele convive na escola, também teve o mesmo diagnóstico alguns dias depois, então acreditamos que tenha sido contagio mesmo, faz parte! Alertei as outras mães com quem tenho contato e também a direção da escola, acho importante até porque ano passado a escola inteira pegou catapora, que não seja assim com a escarlatina. 

Quando saímos do hospital o Be me perguntou se ele tinha a doença de bailarino, igual a música que ele dança no ballet. Saímos de lá cantarolando e a trilha sonora da nossa semana foi “Ciranda da Bailarina” de Chico Buarque. 🙂 

“Não livra ninguém,
Todo mundo tem remela,
Quando acorda às seis da matina.
Teve escarlatina, ou tem febre amarela,
Só a bailarina que não tem…”

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Peppa Pig  e nós – Uma relação conturbada 

   
A um tempinho fui convidada pela Eliana Lee, redatora do site Tela Kids para dar uma entrevista falando da minha visão de mãe sobre o desenho Peppa Pig. Na verdade ela fez um chamado no Twitter e eu respondi na hora, pois acho o desenho um assunto delicado, que já foi bastante debatido aqui em casa e que talvez eu pudesse contribuir, e ela (fofa) aceitou e escreveu um ótimo artigo sobre o assunto. 

Como contei para a Eliana, há quase um ano começou a febre de Peppa aqui em casa, o Bê assistia várias vezes por dia, ficava atraído por tudo que fosse da Peppa e no começo eu até achava engraçadinho, bonitinho, brincava com ele, comprei até os personagens, um boneco do George e um da Peppa.

Mas essa febre trouxe efeitos colaterais, o comportamento do Bernardo foi mudando, houve um retrocesso em processos de aceitação, ele voltou a chorar a cada não que recebia, fazia birras irracionais e o que foi mais grave, fazia insultos como “não sei quem é bobo”, “não sei quem é burro” se referindo muitas vezes a mim e ao meu marido, mostrando falta de noção de autoridade e respeito, mentia como por exemplo falando “não fui eu” para coisas que tinha feito. Ainda por cima ria de tudo isso. Eu não reconhecia meu filho, fiz várias pesquisas sobre comportamento, fases, situação psicológica da criança e nada explicava. Procurei então de onde ele estava imitando aquele modelo de comportamento, quando um dia, assistindo a Peppa percebi ela chamando o pai de “bobinho” achando graça e sem nenhuma repreensão. O Bernardo, alguns dias antes tinha feito a mesma coisa, havia se referido ao meu marido com a mesma frase usada pela porquinha, mas ao contrário do desenho, aqui em casa ninguém achou graça e o Bê ficou uns minutos em seu cantinho de pensar até se desculpar com a família e entender que não é aceitável ofender ninguém, muito menos pai e mãe. 

Comecei cada vez mais a prestar atenção no desenho e estava tudo ali, todo o comportamento “descompassado” do Bernardo refletido nos personagens George e Peppa. Minha primeira reação foi cortar “vou proibir ele de assistir o desenho”, mas sério? Isso só iria atiçar mais a curiosidade de uma criança, precisava de uma estratégia. Então coloquei o desenhopara assistirmos juntos e fui apontando para ele todos os aspectos que eu considero ruins, mas não como forma de imposição, mas de questionamento. Usei frases como “filho, o Geoge tá chorando por que não quer esperar a vez dele na fila do brinquedo. Você acha que ele precisa chorar? Como é a fila dos brinquedos na sua escola? Alguém chora?” Obviamente a resposta foi não, que na escola cada um espera a sua vez, então não existe motivo para o George chorar. Ao final tive uma bela conversa com ele, explicando que as principais coisas que ele precisa aprender são os exemplos de casa, as coisas que nossa família diz, respeita e acredita, expliquei que o que a gente vê na televisão é apenas distração, que antes de copiarmos atitudes, frases e ações devemos pensar se está de acordo com as orientações que ele recebe de nós, com o que ele acha certo.

A estratégia tinha tudo para dar certo, então diminui sim a quantidade de vezes em que ele assiste o desenho, mas aproveito as poças vezes que ele assiste para ativar nele o senso crítico, rapidamente ele entendeu e passou a aplicar, hoje em dia já aponta sozinho problemas, conflitos e situações que vão contra as informações que ele aprende, faz comentários como “olha mamãe, a Peppa desobedeceu a mamãe dela, não pode né?” E até aplicado a outros desenhos e situações, como se referindo aos desenhos de super heróis, esses dias mesmo ele fez uma observação interessantíssima dizendo “Mamãe, se o herói briga e mata o homem mau, é porque ele também é mau, herói bonzinho de verdade só prende e deixa o homem mau de castigo pra não virar mau também, né?!” Eu tive que concordar. 

Esse processo todo aconteceu durante o último ano, e confesso que agora me sinto muito mais segura para ver coisas que eu gosto na presença dele, como filmes, novelas e séries. Ele interrompe esses programas para fazer observações sobre comportamentos dos personagens que ele considera “feios” e “errados” como brigar, matar, ofender e etc… Aproveitei um desenho polêmico para ativar no meu filho, uma criança de 4 anos, o senso crítico, importante conceito que até muitos adultos hoje em dia esquecem. Foi uma estratégia alternativa que deu certo. 

Quer ler o texto ótimo da Eliana sobre o assunto? Entre aqui: 

http://www.telakids.com/quem-explica-o-sucesso-de-peppa-pig/

Capitão Bernardo – A Festa

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Prometi que voltaria para falar da festa desse ano e aqui estou eu!

Esse ano o orçamento foi bem baixo, não cheguei a gastar 1000 reais com as duas festas, e sim, sai mais barato fazer duas pequenas sendo uma para a parte mais próxima da família e outra na escola para a turma dele do que uma grande para chamar todo mundo como fiz nas de 1 e 3.

A de casa foi na tarde de domingo, na sala do nosso apartamento com cerca de 25 pessoas e muito mais adultos do que crianças. O Bê ganhou vários presentes e adorou, ele não se importa em brincar com adultos e crianças mais velhas, muito menos quando todos estão dando atenção a ele hahaha

A da escola foi para ele e as outras 11 crianças da sala, teve baú de tesouros, fantasias de pirata, jogo de argolas e muita diversão. Levei as comidas já embaladinhas e separadas para facilitar, mas confesso que eles pouco comeram os salgados, já os doces……

Praticamente tudo na festa foi feito a mão, os famosos DIYs. Fizemos a parte de papelaria com arte, impressão, corte e montagem em parceria com o super vovô Ro, meu pai. Foram toppers, adesivos, imãs de geladeira, rótulo dos tubetes e bolhas de sabão, bandeirinha com nome, animais piratas e um cartaz com o personagem que criei. A decoração contou com alguns itens prontos da marca Cromus, como o barco de papel, as forminhas de doce em forma de baú e navio e as saias de cupcake, ainda na decoração usei alguns bichos de pelúcia vestidos como piratas. Também transformei algumas caixas de sapato em baús de tesouro com papelão mole, fita crepe e papel crepom que enchi daquelas moedas de chocolate e dadinhos prata e dourado.

O jogo de argolas também foi feito pelo vovô Rô, que adaptou uma moldura resgatada de caçamba, uma placa plástica e alguns cabides. Ficou lindo, foi a alegria da festa e agora enfeita e diverte nossa casa. Para a festa da escola quisemos colocar todas as crianças no clima, um baú de madeira antigo da minha mãe também entrou na dança acomodando os tesouros da festa. Dentro do baú estavam coletes, bandanas e tapa-olhos para todos feitos com TNT pelas lindas e prendadas Vovó Rô e Bisa Pinna, também haviam tubos de papelão (de papel toalha mesmo) usados pelas crianças como lunetas, alguns colares de “pérolas” e coroas, adesivos temáticos e tatuagens infantis. Tudo a vontade para as crianças.

As comidinhas também foram feitas em casa, trabalho da mamãe em parceria com a Vovó Ro e a Vovó Loba. Vale lembrar que gosto mesmo de delícias que fogem ao padrão coxinha, rissole e bolinha de queijo então por aqui tivemos: 2 tipos de torta salgada, barquinhas com pasta de queijo, sanduíchinhos naturais, batata chips e biscoitos de tapioca. E de docinhos: minis cupcakes, gelatina na casca de laranja (sucesso total), brigadeiros clássicos e deliciosos, salada de frutas, tubetes de jujuba, picolés e nossa querida banana pirata.

Além de todas as ajudas nós aqui de casa (mamãe, paidrasto e irmãozinho) trabalhamos muuuito, mas valeu a pena cada segundo e estresse. Foi perfeito e ano que vem tem tudo de novo!

Curtam as fotos 😉

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Quatro anos de amor

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Hoje é dia de festa, Bernardo faz quatro anos e só temos a agradecer a vida. São quatro anos de muitas aventuras, de muito amor e felicidade. São quatro anos também do meu renascimento, da nossa vida, quatro anos que meu coração se dividiu em dois e metade de mim se fez em outro corpo mais lindo e perfeito corpo que a natureza já foi capaz de criar. Ah quem pense eu eu cuido de você filho, mas a verdade é que você que cuida de mim, você que me guia e ainda ri da minha cara dizendo “mamãe atapaiada” quando faço bobagens. Te amo além de todas as coisas que possamos medir, além até do tamanho da nossa imaginação. Obrigada meu pequeno grande amor por todas as alegrias, pelo carinho e orgulho eu você me da. Sou a mãe mais feliz do mundo por ter você comigo. Quero todos os dias acordar com “boom dia mamãe” as 7h da madrugada, contar histórias para você dormir, te socorrer com beijos nos “dodóis” e abraços apertados, viajar em navios piratas, ser a mamãe robô ou fazer parte da Patrulha Canina. Parabéns meu pequeno príncipe, minha missão é te fazer a criança mais feliz de todos os planetas e te educar como uma pessoa de caráter e coração limpos e verdadeiros. Te desejo todo o amor do mundo Emoticon heart

Texto de 16 de Março de 2014

Um amor por festas infantis

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Eu aqui tão enlouquecida com os preparativos da festa de quatro anos (mas jáá??) do Bê que quase não tem dado tempo de produzir posts. E já que em casa o assunto é só esse, é justo aqui no blog ser também.

Eu sou festeira de carteirinha, amo planejar, produzir, colocar a mão na massa e principalmente curtir muito a festa pronta. Sou apaixonada por todos os tipos e temas de festas, mas confesso uma queda (ou abismo) pelas infantis. É tudo tão meigo *—*. E mais uma vez eu uso o filhote de desculpa para satisfazer minhas criancices e dar a ele as festas para as quais teoricamente eu “não tenho mais idade”. Gosto de fazer o máximo que posso a mão, personalizar e organizar tudo em detalhes. Nem sempre a verba disponível condiz com o que sonhamos, mas é tudo uma questão de adaptação, reciclagem e jogo de cintura.

Bom mesmo seria poder fazer festão todo ano, mas não dá. Por aqui fizemos festão de um ano, “Le Petit Bernardo”, foi tudo impecável, chamei a família inteira e gastei uma grana absurda. O Bê mesmo aproveitou naquelas, dormiu boa parte do tempo (no carrinho do lado da mesa do bolo, em exposição), não podia comer aqueles doces todos mas não ficou estressado e hoje em dia ele ama ver as fotos, valeu a pena!

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Nos dois aninhos dividi a festa em três, comemorei na escola na sexta, levei ele pra passar o sábado na Cidade da Criança, São Bernardo SP com uma parte da família e fizemos um bolo em casa no domingo com meus amigos e mais familiares.  Esse aniversário foi o tema que ele mais ama até hoje, Toy Story, e teve direito a tia vestida de elefante pra animar a criançada.

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Ano passado foi uma festa maravilhosa também, eu cuidei pessoalmente de toda a personalização, aluguei brinquedos, chamei os amiguinhos da escola e toda a família. Tivemos uma ótima surpresa, meu marido, “paidrasto” do Bê apareceu vestido de Mickey encantando a festa toda, realizando um sonho do pequeno e fazendo a mamãe chorar toda emocionada.

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Esse ano os piratas vem ai, estou planejando uma festa com gincana para a turma da escola e um bolo em casa, adorei fazer a personalização da festa, estou fazendo novamente. Também vou me empenhar para fazer um cardápio alternativo, com opções mais saudáveis. Faltam duas semanas, prometo um post com todos os detalhes da festa assim que acontecer.

Feminista sim senhora!

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O feminismo é um sentimento que nasceu comigo mas que me trouxe muitos conflitos internos antes de eu realmente me dedicar a estudar e entender sobre ele. Sempre tive a sensação de que havia algo errado em uma sociedade onde as mulheres mostram obediência aos homem sobre assuntos em que elas são as protagonistas. Nunca entendi a idéia de preservar o corpo, se esconder e ao mesmo tempo manter um padrão de beleza físico. A quem interessam essas regras? Não as mulheres. Nunca entendi por que as mulheres da minha família aceitavam humilhações, traições e desprezo em nome da aparência do casamento. Fui tratada como louca, como rebelde, adoravam dizer que “eu nunca iria conseguir um homem” como se isso fosse o ápice da vida de uma mulher. Na adolescência ser tratada como louca e a esquisita não faz bem pra ninguém, entendi que o problema era eu e tinha que me adaptar. Na mesma fase veio o primeiro namoro sério, minha primeira experiência direta com o machismo. A pressão para perder a virgindade, para estar bonita, cheguei a achar que o fim do mundo seria perdê-lo, mas ele nunca mostrou medo de me perder. Ele desfilava pela escola com a “melhor amiga” loira, magra e alta. Eu, gordinha, baixinha que não era nenhuma expert em truques de beleza resolvi virar o jogo. Embarquei em uma bulimia que evoluiu para anorexia, renovei meu guarda roupa com coisas da moda, justas e sexy. Aprendi a me maquiar, emagreci mais do que deveria, me fiz objeto de desejo da escola inteira, eles queriam estar comigo e elas queriam ser iguais a mim. Agora quem fazia bulling era eu. Até que de repente o machismo se inverteu e me atacou novamente, agora eu era a puta pelas roupas que usava, os caras achavam que poderiam fazer as piadas que bem intendessem em relação a mim e ouvia “você decidiu ficar assim, bonita, agora tem que aturar as consequências”. E o problema continuava sendo eu, que cada vez mais magra cheguei a tentar suicídio, queria desistir do mundo. No meio do sonho da carreira de atriz, pela qual eu me dediquei alguns anos na adolescência entendi que o papel principal é sempre de quem dorme com o diretor, ou faz ele pensar que isso irá acontecer. Os meus papéis eram sempre de “Lolita”, esbanjando apelo sexual. Tive alguns namorados, incrivelmente um mais machista que o outro e eu tentando me ajustar. Aos 17 veio a gravidez, eu por alguns instantes acreditei que estava caminhando para o mesmo destino da maioria das mulheres, casar, viver para cuidar da casa, do filho, do marido. Desisti de mim. Porém no final da gestação eu já entendia que não daria para ser assim, o meu então namorado com quem eu morava começou a ser pior do que eu poderia imaginar em uma mistura de falta de caráter, machismo e drogas sintéticas. Eu ficava presa, não podia falar para ninguém oque se passava enquanto ele se drogava dentro de casa durante minha gestação, fui afastada dos meus amigos e convencida de que essa era a única opção que eu tinha. No meio desse loucura fui convencida pelo GO que eu não seria capaz de parir, era muito nova, muito pequena, ele inventou milhões de desculpas e eu sai de lá me sentindo o pior ser humano, incapaz de dar a luz ao meu filho. Me fizeram uma cesárea desnecessária e ainda tentaram me convencer que eu não conseguiria amamentar.
E antes que a violência doméstica se tornasse física meu filho nasceu, nasceu com ele uma leoa dentro de mim. Essa veio cheia de dúvidas e revoltas mas me trouxe coragem e curiosidade para entender a situação que eu vivia.
Criei coragem e gritei pro mundo que sim, eu dou conta de criar meu filho sozinha! Me separei, ouvi todos os absurdos possíveis. 18 anos, um bebê no colo e muita coragem, era tudo que eu tinha. O apoio dos meus pais foi fundamental, mas sempre junto com muita cobrança. Decidi não voltar para a casa dos meus pais, seriamos eu e bebê cuidando um do outro. No centro de São Paulo quando você é mãe solteira e jovem automaticamente é taxada mais uma vez de prostituta. Ai a leoa atacou novamente, eu descobri e me vi no feminismo. O corpo é meu, a casa é minha, o filho é meu, as contas são pagas por mim, ou seja ninguém que não viva exatamente o que eu vivo tem o direito de julgar. Tomei essa lição pra vida, mudei minha atitude e abri os olhos, será que tudo isso aconteceu só comigo? E a resposta é não, não mesmo. Sorte tive eu de passar por tudo e manter a vida, mas infelizmente essa não é a realidade de todas. É absurda a forma como os outros tomam conta das nossas atitudes de forma ignorante, padronizada. O machismo mata milhares de mulheres das formas mais abrangentes, a sensação de posse sobre a mulher leva a índices assustadores de violência, mulheres vivem em cárceres privados, tem suas roupas censuradas, são violentadas verbalmente inúmeras vezes em um único dia, são julgadas o tempo todo, até a constituição nos diz o que fazer ou não com nosso próprio corpo. O que me difere dessas mulheres? Nada! Somos todas irmãs, passamos todas pelo mesmo tipo de violência de gênero e só temos umas as outras para nos defender.
Às mulheres machistas falta o senso de sororidade, falta talvez entender que aquilo a que ela é submetida contra sua vontade é sim uma violência, não é normal e tem saída.
Eu só serei uma mulher livre quando todas as minhas irmãs também forem livres!