Análise da cidade de São Paulo sob a perspectiva do autor Robert Park no artigo “A cidade: sugestões para a investigação do comportamento humano no meio urbano”.

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A cidade de São Paulo é amplamente reconhecida como exemplo do conceito de metrópole. Com mais de 11 milhões de habitantes é visualmente perceptível que temos origens diversas e somos fruto da união cultural. Na presente análise me dedico a observar e comentar a relação do espaço físico da cidade com as diferentes formas culturais urbanas que são ao mesmo tempo consequência e causa mútua. Faço isso a partir do entendimento do texto de Robert Park “A Cidade: Sugestões Para a Investigação do Comportamento Humano no Meio Urbano” e suas indicações pela Ecologia Humana.

“Existem forças atuando dentro dos limites da comunidade urbana (…) que tendem a ocasionar um agrupamento típico e ordenado de sua população e instituições” (PARK, pg 30)

Robert Park afirma que a organização da cidade está diretamente relacionada a estrutura física e a ordem moral. A geografia citadina facilita ou dificulta a mobilidade da população pela área urbana e o fator econômico desenha fronteiras por suas necessidades e interesses, ultrapassando limites morais e a relação de vizinhança. Em São Paulo ilustro essa questão iniciando com a divisão de bairros por colônias que historicamente surgem da relação pessoal de familiaridade , reconhecimentos de costumes, língua e solidariedade que caracterizam o conceito de vizinhança, relações de afeto que formam comunidades dentro do espaço da cidade. O comércio se estabelece próximo as colônias mais ricas, a indústria próximo as que apresentam melhor potencial de operários, ao mesmo tempo temos a movimentação citadina que permite que o mesmo movimento seja realizado ao contrário em alguns casos, como o operário que deixa sua comunidade de origem para se estabelecer nas proximidades da indústria, assimilando pela convivência algumas características de sua nova comunidade. Pelo mesmo movimento as comunidades que não se adequarem ao novo perfil econômico daquele bairro serão afastadas para a periferia através de aumentos dos valores imobiliários de compra e aluguel. O centro econômico de São Paulo atualmente se trata de uma área quase exclusivamente comercial e financeira, onde os valores para moradia são acessíveis apenas para as classes mais altas, os valores vão diminuindo conforme a localização da moradia vá se afastando desse centro. Curiosamente esse processo se reflete em praticamente todos os bairros da cidade, onde existe uma aglomeração comercial e o valor da moradia siga na mesma direção.
Segundo a colocação de Park podemos considerar que os bairros se tratem de vários mundos e o homem citadino viva se transportando entre eles, além da questão geográfica esses mundos são relacionados a afinidades de trabalho, lazer, sentimento, conveniência. O Paulistano que trabalha na República, mora na Lapa, se diverte na Vila Madalena e cresceu no Butantã, por exemplo, transita geográfica e emocionalmente através desses mundos onde ele encontra relações pessoais de algum nível. Ao mesmo tempo comunidades segregadas não encontram espaço em outro mundo citadino se não o seu, a exemplo da população boliviana que se concentra na região do Brás e do Pari, onde trabalham, estudam, tem seu lazer e possuem laços afetivos com outros imigrantes de origem próxima e que sofrem as mesmas dificuldades na relação com a vida urbana além do seu bairro. Nessas comunidades o conceito de vizinhança ainda se mostra forte perante a individualidade urbana.
Quando trato de individualidade urbana é possível incluir fatores sociais, mas ela surge da questão econômica. São Paulo se move através do mercado financeiro, esse que cria diversas possibilidades de emprego, sendo essa a forma que a população enxerga sua ascensão. O mercado de trabalho é específico e busca pessoas qualificadas para cada cargo, que mostrem vocação e desempenhem seu papel com êxito. Porém Robert Park nos alerta sobre essa vocação como um fator social, somos educados para desempenhar as responsabilidades que nossa família e círculo social nos impõe. Assim a ascensão é dificultada, uma corrida onde os participantes partem de pontos diversos em busca da mesma linha de chegada, tornando a disputa injusta. A divisão do trabalho substitui grupos sociais por tipos vocacionais, como o porteiro, o engenheiro, o mecânico. Moldando assim o caráter do trabalhador que se concentra em uma tarefa específica para alcançar o próprio sucesso, se tornando interdependente de outros tipos vocacionais para isso. O vendedor de pastel para ter sucesso precisa ter contato com produtores de carne e queijo, e vice versa, assim a relação de interesse comercial acaba dominando as relações pessoais.
Pude também compreender nitidamente a relação da cidade grande e do conceito de crise apresentado por Park através da cidade de São Paulo. A cidade viva, um de seus tantos apelidos é o retrato do caos pela multidão, informações de todos os tipos surgem incessantemente e a população vive um estado de alerta constante para os mais diversos “momentos psicológicos” que podem com a mesma facilidade serem manipulados ou controlados, dando as relações citadinas o estado crônico de crise.

A crise é tratada por Park como a possibilidade de três mudanças: adaptação, eficiência reduzida e morte. Acredito que na cidade de São Paulo a crise seja a necessidade constante de adaptação, reduzindo a eficiência de mudanças e causando morte (muitas vezes o que a antropologia chama de morte social) dos não adaptados.
Outro grande reconhecimento da cidade de São Paulo é a oferta de atrações culturais, artísticas e a vida noturna. Assim como os vícios o entretenimento urbano é considerado por Robert Park como um meio de explorar instintos fundamentais da natureza humana, ou de controle, através da comercialização do vício. A mobilidade urbana permite que diferentes tipos de drogas circulem por São Paulo, como permite que moradores da zona leste freqüentem festas no centro ou moradores da zona oeste irem ao cinema na zona sul.
A cidade permite a sua população desviar da sua condição moral freqüentando outros “mundos” citadinos sem que seu aspecto moral seja questionado, dentro de um prédio com cerca de 100 apartamentos é possível viver anos sem conhecer aqueles que o cercam além do tradicional bom dia e boa noite de elevador, é possível ter um vizinho ladrão, um jornalista, um palhaço profissional e passar a vida sem desconfiar de nada disso. A individualidade urbana torna os círculos sociais específicos e fechados. Assim, o que sei do meu vizinho é o que julgo sobre sua aparência, a comunicação visual passa a ser mais forte do que as relações pessoais, tornando as frágeis e fúteis. Ao mesmo tempo sei muito sobre o amigo que vive do outro lado da cidade, tem origem diferente da minha mas com quem compartilho interesses em comum. A cidade possibilita que o indivíduo se reconheça em um círculo social divergente do seu de origem, incentiva esse reconhecimento baseado em aptidões pessoais e não de grupo e se alimenta da eterna busca de ascensão social.

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